Relatos do Amamentar

Clínica Perinatal, Rio de Janeiro, 9 de março de 2004:

- Ué, como assim "não está mamando"???

- Ela não mama, suga um pouquinho mas logo depois começa a chorar!

- Não é possível!

...
Em primeiro lugar, gostaria de dizer a todas as mães que não gostam de amamentar: você não é obrigada a gostar. Não se sinta diferente ou monstro porque não gosta de amamentar. Uma amiga me disse, quando eu estava grávida, que seria uma sensação maravilhosa. Confesso que só dei valor àquelas palavras quando minha filha já tinha uns dois ou três meses. Antes disso me sentia meio *estranha* amamentando. Mas era um ato de amor. Pois fazer o que se gosta é fácil, né?

Quando engravidei, meu maior medo era perder o bebê, como tinha perdido o primeiro. Depois que passou o período crítico (primeiros três meses) meu medo era que o bebê tivesse algum problema. Quando eu finalmente desencanei, meu medo era de não conseguir tomar conta do bebê direito. Ou seja, me preparei para tudo de ruim. Mas não me preparei para problemas na amamentação.

Ah, claro, eu me achava a dona da verdade, e tinha lido a verdade em livros, revistas, na internet... Era tão natural, tão fácil amamentar! O bebê já nascia pronto, era só oferecer o peito e *bum* a mágica acontecia e você sentia vontade de chorar. Amor e emoção iriam, junto com o leite materno, alimentar o seu bebê!!!!

Preparei meus seios (pegando sol), comprei vários sutiãs especiais, comprei camisolas com abertura frontal, me via lânguida e feliz com minha filhinha no peito. O obstetra me garantiu que eu teria muito leite. O que mais eu podia esperar? Apenas o receio de sentir muito sono, mas como sentir sono com o amor da minha vida nos braços?

Pois muito bem: minha filha nasceu (de cesariana, outra estória longa) e quando, horas depois, foi colocada para mamar, simplesmente sugou, sugou e alguns segundos depois começou a berrar.

Normal, não é? As enfermeiras achavam que não. Uma disse que o bico era muito grande para a boquinha do bebê! Mas para o pediatra diziam que a menina estava mamando! Saíam uns dois minutos depois de deixá-la no quarto. Eu me esforçava: vai, filhinha, pega logo o jeito, mamãe quer te dar colostro, para você crescer forte e ganhar imunidade a uma série de doenças! Mas a neném não queria mamar, não queria fazer força para sugar, sugava, sugava e depois largava o peito e chorava, frustrada.

E eu fui ficando frustrada também. O pediatra não entendia. As enfermeiras aqui em casa nunca tinham visto ou ouvido falar de um caso assim. Eu insistia em várias posições, mesmo operada, esquecia a dor e me posicionava de todas as maneiras possíveis, de lado, por cima, por baixo, segurava a bichinha no colo em todas as posições possíveis. Nada.

Pingava chá de erva-doce no peito, uma gotinha despertava o instinto da Aninha, ela sugava, sugava, mas depois voltava a gritar, e uma vez *mordeu* meu peito!!! O pediatra dizia que ela estava apta a mamar, e eu tinha todas as "ferramentas", não sabia o que não estava funcionando. Eu chorava às escondidas, me achava um monstro, uma aberração, desesperada eu procurava uma resposta na internet, mas ninguém passara por coisa parecida, eu me sentia tão só. Apenas minha família e as enfermeiras que me ajudavam aqui em casa souberam o que eu passei, acreditavam em mim. Minha sogra me contou que Aninha era igual ao pai, ele também não queria mamar, e ninguém também acreditava nela... Ela desistiu, coitada, e ele começou na mamadeira desde novinho. Eu não queria isso para minha filha!

Finalmente cedi e deram Nan para a bichinha, que estava ficando desidratada e fraquinha (com cinco dias de vida). Ela tomou na "chuquinha" mesmo. Mas eu não desisti. Minha mãe me deu 500 reais de presente e meu marido foi comprar uma bomba elétrica (Medela) que tinham me recomendado.

Que frustração, amamentar uma bomba!!! Mas o líquido que saía, eu sabia, era ouro. E custou muito mais do que 500 reais, custou o medo de minha filha nunca mamar no peito, se acostumar com mamadeira (ela cuspia da colher e rejeitava o copinho). Eu chorava enquanto aquela bomba barulhenta tirava o leitinho que minha filha, morta de fome, sorvia rápido assim que lhe era oferecido. O meu leite "desceu" dois dias depois, meus seios incharam, eu acordei um dia com o colchão molhado de leite, que felicidade!

Tentei amamentar novamente. Um dia, ela tinha uns doze dias de idade, mamou! Minha mãe deu vivas, pagou promessas, eu fiquei tão feliz!!!!! Mas depois de três mamadas, no final da tarde tudo voltou. Lá fui eu para a bomba, pensando se aquela coisa de plástico poderia substituir minha filha e se meu leite persistiria. Eu sabia que não. Sabia que se ela não mamasse, eu perderia o leite mais cedo ou mais tarde.

Então, depois de muito jeitinho, insistência, paciência, e fé, ela pegou o peito.

E a sensação não era tão boa como eu pensava que seria.

Acordar de madrugada para amamentar é uma tarefa árdua. Ficar com os braços dormentes segurando o bebê, com medo de deixá-lo cair, também. Foi quando veio a dor que eu descobri que não gostava mesmo de amamentar. Caramba, eu tinha que morder um pano, alguma coisa, quando ela *pegava* o bico. A pega dela era completamente errada, mas eu não conseguia, não resistia à dor, não tinha forças para tentar fazê-la *pegar* certo. Ela às vezes pegava o bico da maneira certa e "despegava" para abocanhar do jeito que gostava (só o bico). Eu berrava, mas depois de alguns segundos, a dor passava. Tinha sangue na fraldinha dela, sangue que ela mamava junto com o leitinho. Mas a dor foi desaparecendo, Aninha foi acertando a *pega*, os seios foram se acostumando...

E assim foram-se passando os dias, e começou o suga-suga *fofinho*. Os olhinhos dela olhando dentro dos meus, a mãozinha dela apoiada em meu colo, aquele calor passando de seu corpo para a minha alma. Pouco a pouco aquele ato foi se tornando prazeroso, um ato não só de doação, como até então fora, mas de troca, ela me sugava e ao mesmo tempo me transmitia algo, uma força, um sentimento sem igual.

E vieram as brincadeiras, eu ria, ela ria mamando, me imitando. Eu fazia carinho nela, ela apertava meu peito como uma bola de borracha, era (e sou ainda) seu brinquedo preferido. O único porém é que Aninha tinha refluxo, o que atrapalhou a amamentação em livre demanda pois os remédios tinham hora, e um devia ser ingerido uma hora antes e o outro uma hora depois de cada mamada.

Quando eu voltei a trabalhar, levava comigo a bomba (que funciona também com pilhas) e tirava leite para minha filha, em condições complicadas, banheiro público, sem conforto, em pé (segurando a porta com as costas). Mas não me importava, eu ficava feliz em colher leite para Aninha. Só que a quantidade foi diminuindo, de 250ml baixou para 180ml, depois para 120ml e depois não dava nem 60ml. E Aninha foi precisando de cada vez mais leite, começamos a dar Nan para complementar. Mas ela continuou firme no peito, não largou. Cheguei a desmamá-la pois meu leite secou. Tomei um remédio para enjôo que dá leite, realmente voltei a coletar 180ml, voltei a amamentar (parei por um ou dois dias) mas o remédio me dava depressão e síndrome do pânico, então larguei. Desisti de colher leite quando a quantidade ficou abaixo de 50ml mas continuei oferecendo o peito para ela.

Pouco antes de Aninha completar um ano ela já não mamava mais. Eu tinha virado uma chupeta pois ela queria peito a toda hora mas não "mamava" mais do que um, dois minutos. Algum tempo depois ela vinha, me puxando a blusa, exigindo peito a qualquer hora, mas não demorava nada, era mais uma brincadeira, um chupa-chupa sem fim. O leite secou de vez :( Foi difícil "despeitá-la", ela ficava chorando, magoada, exigindo seu chupeito, mas não tinha mais propósito eu oferecê-lo a ela. Foi uma decisão difícil, eu gostaria muito de ter leite até hoje, que ela ainda estivesse mamando, mas não deu. Senti mais falta do que pensei que sentiria... Mas fico feliz que ela tenha tomado leite materno durante bastante tempo, garantindo a saúde de ferro que ela tem.

A minha situação, logo depois de Ana Cecília nascer, poderia ser muito cômoda. Eu poderia ter desistido. Seria tão fácil. Pessoas contratadas acordariam de madrugada e ofereceriam leite de vaca para meu bebê, eu poderia descansar, sair, passear, não precisaria ficar presa em casa esperando a hora da mamada. Mas graças a Deus eu fui bem informada, fui teimosa, e tive a idéia de usar a bomba elétrica, insisti até que ela pegou o jeito e passou a mamar no peito. Ela poderia ter ficado acostumada com a mamadeira, eu sei, mas tivemos sorte e ela não rejeitou o peito mesmo tendo mamado na chuquinha! E olha que ela também chupou chupeta, pouco tempo, por causa do refluxo. Dei sorte.

E aqui fica o relato de uma mãe que teve problemas na amamentação e conseguiu superá-los com a ajuda do marido, da mãe, da família... e da Medela, hehehe, fabricante da bomba elétrica. Até hoje eu não sei direito o que aconteceu, o porquê de Aninha não querer mamar, parecia que ela não queria se esforçar para conseguir seu leitinho e só se empolgou quando sentiu o leite vindo com bastante abundância. Sugar, ela sugava direitinho, não havia qualquer problema em relação a isso. Bom, passou, foi estressante mas toda essa dificuldade só serviu para eu valorizar mais ainda o ato de amamentar. Se alguém souber de caso parecido, pode me avisar, terei prazer em tentar ajudar com minha experiência.

AmAMEnte, o leite materno é um dos melhores presentes que você pode dar a seu filho, junto com seu amor e sua dedicação!

Fonte: Texto original extraído do post comunitário com o tema: Amamentação: o que você tem a dizer sobre isso? - http://aninhababy.blogger.com.br/ data: 12/09/2005


joanaelincoln wrote on May 31, '06
Olá.
Gostaria de saber se alguém pode me ajudar...
Meu filho de quase um mês está mamando no peito. Só que desde quando desceu o leite ele quer mamar muito; seguidas vezes, sem intervalo. Ele mama um pouco e pára. Quando penso em colocá-lo no berço ele chora querendo mamar. A pediatra sugeriu um pouco de Nan, à noite, para que pudéssemos dormir e também dar uma folga aos meus doloridos peitos. No começo funcionou; agora parece insuficiente e ainda fico com ele no colo o dia inteiro o amamentando. Não parece correto e tem sido árduo para ambos. Não sei o que pode estar acontecendo; tenho receio que seja pouco leite. Não gostaria que meu filho deixasse de mamar no peito.
Obrigada,
Joana
andravalladares wrote on Mar 2, '07, edited on Mar 2, '07
Ana Claudia,

Seu relato me emocionou profundamente, estou tendo o mesmo problema com meu filho, ele está com 17 dias e também mamando Nan na chuquinha... Ele não pega o peito de jeito nenhum, fica super nervoso, abre o berreiro... quando consigo que ele se acalme tenho que ficar ordenhando o peito na boca dele porque ele não suga o leite.

Na maternidade sofri o mesmo problema que você, o leite não descia e quando desceu era pouco, e meu bebê não sugava o peito. Tentei de todas as formas amamentá-lo mas não conseguia, ficava exausta e me achando a última das mulheres. O Gabriel ainda teve icterícia e fez banho de luz que também ajudava a desidratar e foi perdendo peso até que o próprio pediatra, recomendou que lhe desse Nan na chuquinha para que ele aprendesse a sugar.

Também tive vários temores como os seus, e alguns probleminhas extras como placenta prévia, minha cesária foi "atípica" (palavra usada pela obstetra), demorou mais de 2h para terminar sangrei muito e depois do parto inchei absurdamente porque retive muito líquido e meus rins não estavam dando conta de colocar tanta água para fora. Seis dias após o parto implorei à médica que ela me recomendasse um diurético porque não conseguia dormir, tamanha eram as dores que sentia em minhas pernas e barriga por causa do inchaço da retenção de líquido. Por fim, minha pressão que sempre foi baixa resolveu ficar alterada e foi a 16 por 9. A médica não queria recomendar o diurético com medo de que meu leite secasse, mas dianda das circunstâncias viu que não havia outra solução. Tomei dois comprimidos do diurético e perdi em dois dias 6kg, tudo em água...

O leite diminuiu mas agora está aumentando, mas o Gabriel continua não querendo sugar o peito pois já está viciando na facilidade da mamadeira... Mas depois de ler seu relato pude ver que para tudo tem solução... vou comprar uma bomba também, porque tenho medo que meu leite seque e meu filho deixe de se alimentar com esse líquido precioso muito cedo.

Obrigada por seu relato, um grande abraço.
kkatiane wrote on Dec 19, '07
Ana Cláudia e AndraValladares...
Parabéns pela perseverança de vcs!!!
Isso prova que vcs são muito bem informadas e sabem q nenhum outro leite se compara ao materno, principalmente pela transmissão de anticorpos via leite para o bebê, tornando-o mais resistente a doenças comuns na primeira infância. Enfim...acho q é desnecessário falar disso, pois vcs já provaram saber...
Mas é importante também considerar q vários fatores podem estar contribuindo para q po bebê não consiga sugar o leite materno, como por exemplo, se o seio estiver muito cheio de leite, ele não consiguirá abocanhá-lo, em função da região ficar mais endurecida do que o normal...nesse caso, deve-se tentar ordenhá-lo um pouco, colocando o leite num recipiente limpo (vc poderá doá-lo para um banco de leite), afim de facilitar a pega correta pelo bebê.
Uma situação contrária poderá ocorrer...O LEITE NÃO DESCE!!! e o bebê fica irritado, não consegue mamar...e a mãe fica angustiada...como parece ter sido o caso de vcs...não sei se isso foi explicado a vcs, mas a fisiologia da amamentação é bastante complexa e fascinante...SE A MÃE ESTIVER ESTRESSADA, PREOCUPADA OU ANGUSTIADA, O LEITE RELAMENTE NÃO IRÁ DESCER!!!!Isso pode ser explicado de forma simplificada, assim:quando o bebê suga o peito e a mãe está relaxada, uma região do cérebro é ativada, fazendo com q ocorra a liberação do leite...mas se a mãe estiver apreensiva, essa ativação não ocorrerá e o leite não descerá!!!Por tanto, nesse caso a única solução é a mãe tentar ficar calma, relaxar para depois tentar amamentar novamente. Acredite!!!!Isso funciona de verdade!!!!É fisiologia pura!!!!
Que Deus abençõe vcs!!!
Katiane- Mãe e nutricionista
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