Desde sempre, a maternidade e a amamentação eram experiências indissociáveis pra mim. Eu nem cogitava não amamentar. Era algo tão natural quanto gestar, parir, amar. Alimentar. Simples assim.
Tenho conseguido. Amamentar duas bebês sem complemento artificial. Duas bebês que crescem e engordam a olhos vistos. Que se desenvolvem maravilhosamente, são espertas, precoces, inteligentes. E felizes, muito felizes. Basta ouvir as lindas gargalhadas que vira e mexe inundam a casa de vida e me enchem o coração de ternura.
Não vou dizer que foi simples. Não foi. As dificuldades existiram. Algumas tão dolorosas que quase me fizeram desmoronar, não fossem as pessoas a meu lado. Aliás, essa é uma ótima oportunidade para agradecer. Ao Re, que fez um esforço incrível para superar sua própria ansiedade e comprar comigo a briga da amamentação exclusiva, ficando ao meu lado para o que desse e viesse. Lindo. À Márcia, consultora de amamentação, que teve a paciência de nos dar o apoio de que precisávamos para persistir e o ombro amigo para que chorássemos nossas pitangas à vontade. E à minha mãe, que sempre tinha uma palavra de tranquilidade e incentivo, sempre tão importantes. Sem todo esse apoio eu talvez não tivesse superado o que superei. A dificuldade de pega da Estrela, que mamou meu leite na mamadeira por três semanas, até voltar ao peito. A sensação de exaustão das primeiras semanas, quando eu praticamente não passava vinte minutos sem ter uma bebê no peito. A dor nos mamilos rachados que levaram mais de um mês para cicatrizar. A falta de incentivo do primeiro pediatra das meninas, que insistia que eu jamais teria leite suficiente para duas bebês e que elas não ganhariam peso adequadamente.
Mas tudo isso passou. Ficou pra trás, e hoje se me lembro parece tão pequeno. Tão insignificante diante da satisfação de ver minhas meninas crescendo pela minha doação.
Aliás, nem sei se faz sentido falar em doação. Porque acho que recebo muito mais do que dou. O prazer que sinto em amamentar é algo quase obsceno, de tão infinito. A mágica de estar constantemente dando a vida faz muito mais por mim do que por elas. Porque me torna grande, melhor, completa.
Amamentar, para mim, é muito mais que uma responsabilidade com as minhas filhas. Vai muito além da necessidade nutricional delas, dos benefícios físicos que proporciona. Está profundamente conectado com a nossa ligação mãe-filha, com o meu prazer na maternidade, com a magia de dar, através do meu corpo, a vida. Com a minha essência de mulher, mãe, mamífera.
Dar o peito é dar o leite, sim. Alimentar. Mas é muito mais do que isso. É aconchegar, acalentar. É amar. É se permitir transformar. Ser o veículo pelo qual a natureza expressa sua magia, sua ordem, seu sentido. É reestabelecer a ligação vital que tínhamos na gravidez, quando éramos um só corpo, uma só vida.
O que eu sei é que são momentos que vou guardar para sempre. As mãozinhas me segurando o seio, como se quisessem garantir a presença e o contato. Os olhares doces e cheios de ternura, que me miram como quem diz: ‘que bom que você está aqui’. O sorriso entre uma sugada e outra, meio que escapando, sem perceber, maroto e meigo a um só tempo. A respiração suave sentida no contato pele com pele. A sensação infinita de tê-las dormindo em meus braços, satisfeitas, seguras e felizes.
Sei também que tudo isso é ainda mais importante para mim do que para elas. Amamentar me faz sentir menos só. Porque me engrandece a cada momento. A cada toque. A cada troca.
De fato, eu não dôo, não. Elas é que me doam. Elas é que me dão a vida. A cada mamada.